quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diversidade: Lidar com ela é seu papel

Por Rogério Chér*  |  Endeavor

Certa vez, testemunhei um profissional fazendo piadas sobre negros e homossexuais com seus colegas de trabalho. As pessoas ao seu redor estavam desconfortáveis. Ele não se deu conta e ampliou o repertório bárbaro de "besteirol". O empreendedor estava presente e percebeu o estrago. Interrompeu de pronto o triste espetáculo e repreendeu o indivíduo com veemência, na frente de todos. Agiu bem?

Não podemos condená-lo. Àquela altura, o contexto era crítico e exigia uma resposta. As pessoas encaravam o empreendedor com súplica e pediam com os olhos "Tire-nos dessa! Faça alguma coisa!", e ele fez. Mas a pergunta é: "O que fazer para não chegar a esse ponto?"

A referência maior para questões dessa natureza será sempre a cultura da organização, cuja expressão principal são os valores, que podem ser omissos em relação aos temas da diversidade, inclusão e tolerância ou mesmo "permissivos" - o que será um desastre. Uma vez que os valores sejam claros e autênticos, no repúdio à intolerância de qualquer natureza, restam ao empreendedor duas preocupações: 1) fazer com que processos, políticas e práticas estejam ancorados nesses valores; 2) cobrar atitudes coerentes de si próprio e de todos os demais com o discurso de inclusão e apreço pela diversidade.

Outro cuidado será com a atração. Todo processo de recrutamento e seleção deve ser norteado pelos valores e propósitos da organização. É preciso buscar talentos não apenas competentes tecnicamente, mas, sobretudo, comprometidos com as crenças concretamente valorizadas e estimuladas dentro daquela cultura.

No fundo de nossas emoções mais inconscientes, todos nos sentimos "diferentes". Em nossos diálogos internos, algo dentro de nós lamenta por "não sermos iguais a eles". Quando esses sentimentos ficam confinados à sombra da nossa inconsciência, o resultado será não aceitar aquilo que consideramos "diferente" em nós. Esse processo afetará nossos relacionamentos de vida e carreira, inviabilizará relações sólidas e duradouras de confiança e criará fantasmas em todo lugar. O sentimento será de "boicote", não reconhecimento e insatisfação permanente. Indivíduos assim armazenam dose venenosa de intolerância contra si próprios, que se expressa de modo nefasto e inconsciente como intolerância aos demais. Não enxergam nem aceitam suas diferenças, no mesmo instante em que atacam e agem preconceituosamente com os "diferentes".

Não será mera coincidência encontrar pessoas tolerantes entre aquelas que investiram em seu autoconhecimento, que encaram de frente seus "pontos cegos" e enxergam suas próprias diferenças como aquilo que as tornam únicas e que as conectam às outras pelo que elas têm de singular. Sabem que a conexão com os outros começa pelo que temos de diferente e pelos aspectos que nos atribuem traços distintivos, para depois a conexão convergir pelo que temos em comum. São pessoas que enxergam a interdependência e a diversidade não como opções, mas como realidades inequívocas. São, em geral, aquelas pessoas que buscam ampliar a consciência para sua razão de ser e para seu papel no mundo.

O que você, empreendedor, tem feito para atrair e desenvolver mais gente com esse perfil?


*Sobre o autor: Rogério Chér é sócio da Empreender Vida e Carreira, ex-Vice Presidente de Operações da DBM e ex-Diretor Corporativo de RH da Natura.

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